Maternidade de empresas

31/03/16 17:45
 
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Maternidade de empresas

Até há pouco mais de uma década, a palavra empreendedorismo não estava tão latente no dicionário dos brasileiros. Os pequenos e médios negócios respondiam por 23,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2001, e a geração de informações relativas a essa modalidade de negócios era precária. Hoje, as cerca de nove milhões de MPEs respondem por 27% da geração de riqueza do País e empregam mais da metade da força de trabalho ativa no Brasil. 

Os números foram possíveis graças a iniciativas como a Endeavor, organização presente em mais de vinte países que procura fomentar o empreendedorismo, sobretudo em empresas com potencial para alcançarem alto rendimento no futuro. 

No Brasil, a Endeavor mantém oito escritórios em diversas regiões, e já ajudou a desenvolver mais de uma centena de empresas. Nesta entrevista, o coordenador de apoio a empreendedores da Endeavor, Gustavo Marujo, fala sobre o momento atual do empreendedorismo brasileiro. Confira os principais trechos:

Como está o cenário para os empreendedores assistidos pela Endeavor? 

Temos atualmente 50 empresas que faturam entre R$ 10 milhões e R$ 100 milhões. Parte delas sofreu bastante no ano passado, algumas porque atendiam a grandes empresas, e naturalmente o faturamento desacelerou. Mas outras têm um modelo de negócios mais sólido e estão em mercados em crescimento. As de maior crescimento, que representam de 10% a 20% do portfólio, atuam no segmento de tecnologia, e construíram modelos que conseguiram escala e diferenciação da concorrência. Há dentre essas empresas aquelas que conseguiram aproveitar a desvalorização do real para exportar e brigar por espaço em mercados como África, América do Norte e Oceania.

O que as empresas, sobretudo as menores, devem fazer em momento de baixa atividade econômica? 

O que a gente vê aqui é que os empreendedores precisam ter capacidade de analisar custos e cortá-los no momento certo. Esses conseguem sofrer menos, mesmo com custo limitado de pessoas e dinheiro. Se o empreendedor puder olhar para a parte que ele controla, que é o custo, e mantiver essa estrutura organizada, certamente terá menos dificuldades.

O que um empreendedor precisa fazer para obter sucesso com seu negócio? 

Olhamos muito para a capacidade de execução do empreendedor, o quanto ele conhece do mercado. Nossa recomendação é que ele olhe para onde conheça mais e tenha alguma experiência. É importante que ele saiba quais problemas seus clientes enfrentam. E também aconselhamos que o empreendedor não tente agir sempre por conta própria, mas busque formar um time o mais capacitado possível. Ele deve usar o que tem de bom e procurar alguém que complemente isso, um funcionário ou sócio. Quanto ao mercado, quanto maior ele for, maiores serão as chances de o empreendedor construir uma empresa grande, e, para aproveitar isso, é preciso fazer um modelo de negócios visando ganho de escala para aumento do faturamento sem aumento da quantidade de recursos investidos.

Quais modelos de negócios ou empresas mais se destacaram em 2015 e que prometem ser bons também para 2016? 

Vejo alguns exemplos, como a Dr. Consulta, rede de clínicas voltada a quem não tem plano de saúde e encontra dificuldades para acessar o Sistema Único de Saúde (SUS). Eles montaram um modelo que alia serviço adequado a um custo justo, que, em alguns casos, sai mais em conta do que o sistema privado. E acredito que um dos fatores que ajuda a alavancar o mercado deles é que as pessoas, num cenário de crise, deixam de ser atendidas por planos de saúde privados. E uma alternativa barata e eficiente ao SUS seria ir a uma clínica que o atenda nesse modelo. Tem muita gente que se encaixa no perfil que eles buscam.

Tem outros exemplos? 

Sim. Dentre as empresas que assistimos tem também a Ebanx, que processa pagamento de varejistas estrangeiros que vêm para o Brasil. Caso do Alibaba, do Spotify, entre outros. E elas tiveram bons resultados num momento em que o consumidor de internet pesquisa mais, e também à medida que esses players foram entrando no País. Eles conseguiram fazer um produto muito bom, capaz de se diferenciar da concorrência e facilitar a relação de consumo no Brasil entre essas empresas e, principalmente, com as pessoas que não têm cartão de crédito internacional.

O que um aspirante a empreendedor precisa para colocar seu sonho em prática e como a Endeavor pode contribuir com esse público? 

A primeira coisa é a capacitação. O Brasil é um país onde as pessoas mais querem empreender e ganhar dinheiro, por outro lado é também um dos países onde os empreendedores menos se capacitam. Isso tem melhorado, é verdade, mas o brasileiro vai ainda pouco atrás de capacitação. E, para auxiliar os novos empreendedores, temos em nosso site artigos, cartilhas e vídeos que ensinam coisas básicas, como gerir as pessoas da empresa, ter fluxo de caixa e usar ferramentas de marketing. São informações importantes para tirar o sonho do papel e ter sucesso, mas muita gente ainda ignora. Vai mais pela tentativa e erro. Os empreendedores que mais se capacitam antes de entrar no negócio têm mais chances de dar certo do que aquele que dá um tiro no escuro.

Qual o perfil de quem procura empreender hoje em dia? 

Um dos estudos que a gente fez mostra que o empreendedor que cresce na faixa dos 20%, ou seja, de alta performance, é de fato mais experiente. Já empreendeu e não deu certo ou é um cara que vem do mercado, trabalhou em alguma empresa e aplica em seu negócio algumas das ferramentas que adquiriu com a experiência. Mas é grande também o interesse de montar o próprio negócio entre jovens de 25 anos a 30 anos. Mas os mais velhos se dão melhor.

Quais os principais desafios de quem decide montar uma empresa no Brasil hoje? 

A burocracia. Temos o tempo de abertura de empresas, por exemplo, e uma série de coisas que fogem ao controle do investidor, geram dificuldades, e desestimulam quem pretende abrir o próprio negócio. A questão do pagamento de impostos é outro ponto importante nesse sentido, e temos estudado isso para melhorar para o empreendedor brasileiro. O Simples é bom, mas se aplica a empresas que faturam R$ 3 milhões. Depois que sai dessa faixa, o empresário paga da mesma forma que uma empresa grande e complexa. A forma complexa como os tributos são cobrados, fora a grande incidência de impostos, é um grande impeditivo para o avanço do empreendedorismo. Quando tem muita incidência de imposto, ele fica caro para exportar mesmo com o real desvalorizado. Se formos olhar por esse lado, o ambiente não é dos mais favoráveis.

E o que precisa ser feito para melhorar o ambiente de negócios no País? 

De uma maneira geral, acho que simplificar a burocracia, diminuir o tempo de abertura e fechamento de empresas, investir mais em infraestrutura, principalmente para o varejo, e melhorar o acesso à mão de obra qualificada.


Matéria publicada na edição nº37 da Revista Varejo & Oportunidades produzida pela Editora Lamonica.
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